António Sapage

Uma parte significativa do acervo de porcelana chinesa exposta no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau tem origem na coleção privada de António Sapage.

Cobrindo um período de mais de 6.000 anos, do Neolítico à última dinastia chinesa, Qing, as obras reunidas por António Sapage em Macau narram a História de uma cultura e civilização ímpares, mas também ilustram a singularidade da cidade oriental e da sua vivência.

Nascido em Macau a 29 de janeiro de 1949, António Sapage entrou no mundo do colecionismo por mero acaso. Assim o próprio contava, recordando como tudo começara no final da década de 1960.

Enquanto chefe da secção anti-associações secretas nas forças de segurança de Macau, António Sapage cruzou-se com inúmeros chineses que procuravam refugiar-se em Macau depois de “darem o salto” (como, então, se dizia) da República Popular da China para o pequeno território administrado pelos portugueses.

Frequentemente fazendo a travessia a nado, alguns dos novos migrantes apenas transportavam consigo peças e artefactos antigos na esperança de que o seu valor ajudasse à sobrevivência dos primeiros e duros tempos de liberdade. António Sapage costumava dizer que o seu maior mérito tinha sido perceber que estava diante de obras de grande valor artístico e cultural, bem como uma oportunidade de negócio. Assim foi.

Em pouco tempo, estabeleceu-se como colecionador e passou a colaborar com as grandes leiloeiras, Sotheby’s e Christie’s. Nos principais centros de arte mundiais, como Nova Iorque, Londres, Amesterdão, Mónaco e Hong Kong, António Sapage negociou obras que chegavam a gerar lucros entre 500 a 1000 por cento. O colecionismo, dizia, envolve uma certa dose de jogo, tal como o mercado bolsista – ou não fosse ele natural de uma terra famosa pelos seus casinos.

Apesar do sucesso, cultivava uma aparência de simplicidade e modéstia, que não denunciava a ligação ao extravagante mundo do mercado da arte.

Peças da sua coleção figuraram em várias exposições organizadas em Macau, onde António Sapage foi, também, responsável pela classificação do Espólio Arqueológico das Ruínas da antiga Igreja da Madre de Deus e do Colégio de São Paulo.

Como colecionador e especialista, António Sapage esteve ligado a diversas instituições, tendo sido Vice-Presidente da Associação de Colecionadores de Macau, Diretor Honorário Permanente da Associação dos Peritos e Colecionadores de Antiguidades Chinesas da Província de Guangdong, Membro da Museum Society de Hong Kong e Membro da Oriental Ceramic Society de Londres.

Em 1999, António Sapage foi agraciado pelo Governo de Macau com a Medalha de Mérito Cultural devido à sua “reputada atividade nos domínios da recolha, promoção, estudo, ensino e divulgação da Arte Chinesa, bem como na promoção externa de Macau ao nível patrimonial e artístico, e o contributo que da sua ação tem advindo para a internacionalização do Território no circuito dos colecionadores de arte oriental”.

Fontes consultadas:
“A Porcelana Armoriada da Colecção do Centro Científico e Cultural de Macau: Uma Análise Histórico-Artística e de Mercado” (Dissertação de Mestrado), Vera Maria Carvalho Bello Dias, Instituto Universitário de Lisboa, 2012
Boletim Oficial de Macau, I Série, N.º 39, 27/09/1999, Macau
“Do Neolítico ao último Imperador: a perspectiva de um coleccionador de Macau”, Instituto Português do Património, Lisboa, 1994
“Pousadas” (revista), Outono, 1995, Lisboa